sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Afinal, quem precisa de igreja?



Por Alan Brizotti ►
Esse post é baseado num estudo que ministrei numa igreja aqui em Goiânia, a partir do texto de Apocalipse 1.

J F Powers escreveu algo intrigante sobre a igreja: “Esta é uma grande e velha nave. Ela range, balança, rola, e às vezes faz com que a gente queira vomitar. Mas ela chega ao destino. Sempre chegou, sempre chegará, até o fim dos tempos. Com ou sem você”.

João da Cruz dizia que “a alma virtuosa que está só, é como a brasa que está só: ao invés de esquentar, tornar-se-á cada vez mais fria”. A igreja sempre esteve na fronteira entre a maravilha e o caos. Entre a glória e a vergonha. Entre o céu e o inferno.
Não é privilégio do nosso tempo uma igreja em crise. A igreja de Corinto era formada basicamente por mercadores judeus, ciganos, gregos, prostitutas, idólatras pagãos e gente de mentalidade sexual deturpada. Os primeiros capítulos mostram Paulo preocupado com uma pergunta: “exatamente, o que é isso que se chama igreja?” Paulo jamais fez essa pergunta sobre o judaísmo ou qualquer outra cultura pagã. Mas o enigma da igreja preocupou o apóstolo.

Por isso, Paulo procura em sua primeira carta aos Coríntios, palavras certas para descrever o mistério da igreja: lavoura, edifício? Até que no capítulo 12 ele usa a metáfora que se encaixaria com perfeição: corpo!

Como todo corpo a igreja tem dores. É de sua natureza o conflito. Flannery O’Connor escreveu algo terrivelmente verdadeiro: “o culto era tão horrível [na minha igreja] que deveria haver algo mais nele para que o povo continuasse vindo”.
Não é por acaso que o Novo Testamento insiste obstinadamente em apresentar a igreja mais como família do que como instituição: você conhece alguma família perfeita? A famosa igreja primitiva é descrita em riqueza de defeitos!

Vamos analisar um pouco mais de perto essa pergunta: “quem precisa de igreja”?
1. Não preciso de igreja, preciso ser igreja

O grande equívoco da geração envenenada pelo câncer da rivalidade e da crítica maldosa está no olhar errado: a postura de consumidor: “divirta-me”; “dê-me algo de que eu goste”. Quando o centro do culto está em mim, não sou igreja – o foco precisa estar em Deus! Apocalipse é o padrão: começa com a visão extraordinária da pessoa bendita de Cristo. Quando somos cristocêntricos, somos igreja!

Deus, não a congregação, é o mais importante. Quando me proponho a focar o palco e seus atores medíocres, vou acumular decepções, mas quando enxergo a cruz e mantenho os olhos para além do que acontece no palco, vejo a graça – vejo Deus!

A igreja – principalmente as pessoas que a Bíblia expõe – sempre foi marcada por decepções. Em Lc. 10. 1-23 Jesus faz um teste: envia cerca de 70 discípulos sem sua presença entre eles para várias cidades. A igreja em teste! Voltaram e Jesus em sua leitura detecta um grave perigo: o fascínio pelo poder, pela mágica, pelo êxtase!

A Igreja sempre vai ter decepções. Você não está num filme hollywoodiano, mas na vida comum das pessoas. Somos igreja e Jesus nos ama assim.

2. A tentação da espiritualidade em série

É o mal de Procusto. A mentalidade de gueto. A maldição do tribalismo. É o nazismo religioso. Conheceu um, conheceu todos. Se procuro uma igreja "como eu" estou destruindo todos os sinais da diversidade. É o Apocalipse e as sete igrejas, com suas idiossincrasias, seus defeitos e manias, suas virtudes e alegrias – sua celebração das diferenças.

Preciso entender que gente diferente de mim pode ser uma grande bênção no caminho da adoração. Philip Yancey escreveu: “como é fácil nos esquecermos que a igreja cristã foi a primeira instituição na história do mundo a nivelar num mesmo patamar judeus e gentios, homens e mulheres, escravos e livres”.

A igreja unia e ainda une em torno da mesa: é a Ceia, a celebração que cura o Éden: no jardim, o homem sem Deus comeu e pecou; na Ceia, o homem com Deus, come e celebra a vida. Ceia solitária não celebra, é apenas lembrança triste de um paraíso sem comunhão!

3. Não se pode fugir da igreja, apenas de um templo

Assim como não se consegue fugir da casa, mas somente de casa. Foge-se de uma geografia (paredes numa rua), mas não do estado de espírito que o lar representa. Alguns fogem da geografia do templo, apenas para tornarem-se alvos da missão da igreja: os que estão lá fora! A igreja é missionária! Se você sair, a gente vai atrás!

William Temple disse que “a igreja é a única sociedade cooperativa no mundo que existe em benefício dos que não são membros”. A igreja verdadeira trabalha, é movida pelo servir. Sua natureza aponta para fora do templo: para os que estão à margem do caminho. Repito: se você sair, a gente vai atrás!

É o Pai do filho pródigo esperando e correndo (Lc. 15. 11-32); é o pastor indo atrás da ovelha que se perdeu (Mt. 18. 12, 13); é Jesus tratando como amigo o traidor Judas (Mt. 26. 50), indo atrás de Pedro no barco (Jo. 21); é o recado à igreja de Éfeso, (Ap. 2. 5): “lembra-te de onde caíste”. As portas da igreja estão sempre abertas para quem saiu do templo pensando ter saído da igreja.

4. É impossível fazer parte da história de Deus no mundo sem passar pela igreja

Apocalipse é taxativo nesse ponto: João vê Jesus Ressurreto, e ao invés de descortinar os eventos futuros e revelar logo o céu, passa pela igreja – uma não, sete!

Antes mesmo de falar ao mundo, Jesus fala à igreja. Em João 15. 16, o mesmo apóstolo declara o que Jesus vaticinou: “Não foram vocês que me escolheram, eu escolhi vocês”. A igreja é o risco que Deus quis correr. Dorothy Sayers lista três humilhações que Deus enfrentou na história: a encarnação, a cruz e a igreja.

A igreja é o elogio de Deus à raça humana: é Deus resolvendo habitar em nós através do Espírito. O mesmo Deus que esteve acima de nós (Antigo Testamento), e ao nosso lado (Novo Testamento), agora está dentro!

Eugene Peterson escreveu algo sobre esse aspecto do Apocalipse em relação à igreja que preciso reproduzir aqui:

O Evangelho nos leva à vida comunitária. Uma das principais mudanças que o Evangelho opera é gramatical: “nós” ao invés de “eu” e “nosso” em vez de “meu”. Quando se voltou na direção da voz de trombeta que chamava sua atenção, a primeira coisa que o apóstolo João viu foram os sete candelabros de ouro, que são as “sete igrejas”. Então, no meio deles, viu “alguém semelhante ao filho do homem”, Jesus, o Cristo. É impossível ter Cristo sem a igreja. Nós tentamos. Gostaríamos muito de evitar o envolvimento nas contradições e distrações das outras pessoas que acreditam nele, ou afirmam que creem. Desejamos o Cristo que é apenas bondade, beleza e verdade. Preferimos adorá-lo diante de um magnífico pôr-do-sol, das notas inspiradoras de uma sinfonia que nos eleva, ou de uma poesia tocante.

Gostaríamos de colocar a maior distância possível entre nossa adoração e a indiferença e o moralismo exagerado que sempre conseguimos, de uma forma ou de outra, encontrar na igreja. Somos ardentes para com Deus, mas frios para com a igreja. Não é a falta de religião ou indiferença que faz muitos se afastarem; é exatamente o oposto: eles entendem e experimentam a igreja como um poluente cancerígeno no ar puro de sua religião. Muitos, desejando alimentar a fé em Deus, em lugar de se integrar a uma companhia de santos que continuam a parecer e agir como pecadores, fazem uma longa caminhada por uma praia, escalam uma montanha, ou se dedicam a ler Dostoiévski, Stravinsky ou outro.

Mas o Evangelho diz não a todo esse esteticismo pretensioso: “Escreva às sete igrejas”. Seria mais de nosso agrado ir diretamente da visão maravilhosa de Cristo (Ap. 1) para o êxtase glorioso do céu (ap. 4 e 5), ou então para as grandes vitoriosas e batalhas contra a perversidade do dragão (Ap. 12 a 14). Mas é impossível. É necessário lidar antes com a igreja.
A ação de Deus na história passa pela igreja!

Precisamos voltar a ser igreja!


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